terça-feira, 27 de junho de 2006

Neste dia, em . . .

1917 – Nasce Artur Quaresma (Campeão em 1946)

É uma das maiores referências vivas do clube, esperamos que por muitos e bons anos.

Vindo do respeitável Barreirense, clube da sua terra natal, Artur Quaresma chegou ao Belenenses em 1936. Logo nessa época, de 1936/37, foi Vice-Campeão Nacional. O Belenenses ficou apenas a um ponto do Benfica, com três pontos de vantagem sobre o Sporting e nove sobre o F.C. Porto (uma surpreendente derrota caseira contra a Académica impediu-nos do título). Esteve ainda nas meias-finais do Campeonato de Portugal.

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A época seguinte, de 1937/38, foi pior para o Belenenses, que se quedou num decepcionante quinto lugar no Campeonato Nacional, considerado vergonhoso pelos dirigentes e adeptos (hoje um quinto lugar...a contar do fim, constitui motivo de orgulho para alguns...), e um também desagradável terceiro lugar no Campeonato de Lisboa.

No entanto, Artur Quaresma estava em excelente condição e, assim, em 28 de Novembro de 1937, estreou-se na Selecção Nacional A, em jogo com a Espanha. Ele e os dois outros jogadores do Belenenses presentes (Mariano Amaro e José Simões) foram os únicos a recusarem-se a fazer a saudação fascista.

Na época de 1938/39, foi Vice-Campeão de Lisboa, com o Belenenses a ficar somente a um ponto do Sporting. No Campeonato Nacional, ficámos em quarto lugar.

Desde 1939/40 a 1942/43, o Belenenses (e, portanto, Artur Quaresma) obteve sempre o terceiro lugar no Campeonato Nacional. Como já referimos, fomos esbulhados do título em 1942/43, por arbitragens insólitas; mas também em 1939/40, fomos seriamente prejudicados, nomeadamente em jogos com o Sporting e o F.C. Porto, com os encontros a serem encurtados (quando perdíamos) ou suspensos (quando estávamos em situação vantajosa). Destas situações, e dos enérgicos protestos do nosso clube, dá conta Acácio Rosa na pág. 351 (aqui reproduzida) do seu livro sobre a História do Belenenses que compreende o período de 1919 a 1960.

Note-se, entretanto, que o Belenenses teve o melhor Ataque dos Campeonatos de 1940/41 e 1942/43; e Artur Quaresma integrava, justamente, a nossa linha atacante.

Curiosamente, nas mesmas épocas, o Belenenses foi também sempre terceiro no Campeonato de Lisboa.

Já na Taça de Portugal, as coisas foram diferentes: o Belenenses foi finalista em 1939/40, 1940/41 e 1941/42 (à quarta edição, o Belenenses era o clube com mais presenças na final). Perdemos as duas primeiras edições mas ganhámos a de 1941/42. Foi o primeiro grande título de Artur Quaresma. Note-se que ele não pôde estar presente na final do ano anterior (22 de Junho), o que não foi pequeno contratempo para a nossa equipa. De qualquer modo, colaborou no percurso para chegar a essa três finais consecutivas.

Em 1943/44, Artur Quaresma obteve o seu segundo grande título ao serviço do Belenenses: fomos Campeões de Lisboa, com o melhor Ataque e a melhor Defesa.

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A época de 1944/45 foi excelente para Artur Quaresma: obteve mais três internacionalizações, em jogos de Portugal com a Espanha (11 de Março de 1945, em Lisboa; empate 2-2; Serafim das Neves e Rafael Correia igualmente presentes), novamente com a Espanha (6 de Maio, na Corunha; derrota 4-2; Mariano Amaro, Feliciano e Rafael também presentes) e com a Suíça (21 de Maio, em Basileia; derrota 1-0; os mesmos quatro jogadores azuis presentes).

Por outro lado, brilhou a grande altura nos dois jogos que o Belenenses realizou com o Real Madrid: empate 2-2 em Espanha e vitória 1-0 nas Salésias (15 e 31 de Maio) .

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Mostrou-nos, um dia, quais relíquias, recortes de jornais espanhóis referentes ao primeiro desses jogos. Admirámo-los e admirámos essa nossa grande figura; e, porém, “porca miséria”, ninguém estava interessado no grande Artur Quaresma, nem parecia conhecê-lo, em plena época de euforia com o rolador Rodolfo Lima! Enfim, sintomas da decadência do Belenenses!... Nada já nos espanta, desde que, por exemplo, há dias a Ana Linheiro foi aqui insultada e os defensores dos “bons costumes” (?) – sempre tão incomodados se se diz alguma coisa de quem põe o clube na lama e nem dá explicações – não se incomodaram nada.

No Campeonato Nacional do mesmo ano (1944/45), ficámos em terceiro lugar, com os mesmos pontos do Sporting e a três do Benfica, tendo o Belenenses novamente sido afastado do título por factos anómalos, em especial uma vergonhosa arbitragem em jogo com o Sporting (24 de Junho).

E chegou a célebre época de 1945/46. O Belenenses, com Artur Quaresma, foi Campeão de Lisboa e Campeão Nacional. Quaresma foi, uma vez mais, determinante. No Campeonato de Lisboa, tivemos o melhor Ataque (e, de resto, também a melhor Defesa); no Campeonato Nacional, só à sua conta marcou 14 dos nossos 74 golos, tendo estado em grande evidência no jogo decisivo em Elvas.

Em 14 de Abril de 1946, obteve a sua quinta e última internacionalização. O Belenenses venceu a França por 2-1 e estiveram presentes cinco jogadores azuis: Serafim, Amaro, Feliciano, Rafael e Quaresma. Note-se que o número de internacionalizações de Artur Quaresma teria certamente sido muito superior se, por causa da Segunda Guerra Mundial, a Selecção Nacional não estivesse estado inactiva entre de Janeiro de 1942 e 11 de Março de 1945 e se, mesmo antes e depois disso, os jogos internacionais não fossem muito mais raros.

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Em 1947/48, Artur Quaresma esteve na inauguração do Estádio do Real Madrid e contribuiu para o terceiro lugar do Belenenses no Campeonato Nacional, que liderámos várias jornadas, mesmo já na segunda volta, e que acabámos a quatro pontos de Sporting e Benfica.

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Em 5 de Outubro de 1948, apenas com 31 anos, teve a sua festa de despedida, e ainda marcou um golo na nossa vitória por 4-1 sobre o Sporting.

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Mas a sua ligação com o futebol do Belenenses não terminou aí: ocupou-se na formação e no treino de jovens jogadores durante cerca de uma década e meia, com significativo sucesso.

Para além disso, Artur Quaresma esteve e estará sempre no Belenenses e o verdadeiro Belenenses estar-lhe-á sempre grato e pronto a tributar-lhe o seu imenso respeito...

segunda-feira, 26 de junho de 2006

Neste dia, em . . .

1952 – Rui Ramos faz 15,54 metros no triplo salto, segunda marca europeia e terceira mundial da época, record nacional durante 14 anos

Hoje em dia o Belenenses tem uma pista de atletismo muito bonita, que pode ser vista como motivo de orgulho, o Engº Cabral Ferreira que esteja descansado que não esquecemos que enquanto Vice-Presidente esteve ligado à sua implantação e reluzente inauguração, mas cabe perguntar: valeu a pena o investimento? Ou antes: valeu a pena o investimento se não temos um único praticante de Atletismo capaz de um feito notável? Valeu a pena, se atletas de outros clubes vão lá treinar?

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A verdade é que formámos ou ajudámos a formar campeões como Francis Obikwelu e Naide Gomes (ou, no Triatlo, Vanessa Fernandes) mas, depois, o mérito das medalhas é creditado aos clubes para onde os deixamos transferirem-se...

Longe, pois, vão os tempos em que a nossa Equipa Feminina sénior foi dez vezes Campeã Nacional (décadas de 40 e 50); longe vão os tempos em que Georgete Duarte arrebatava títulos nacionais atrás de títulos (46, um máximo imbatido, desde meados dos anos 40 até 1958); longe vão os tempos em que José Pinto foi a três Jogos Olímpicos (1984, 1988 e 1992); longe vão os tempos (fim da década de 40 e começo da de 50) em que Joaquim Branco chegou a ser recordista Nacional de oito provas (e ibérico de uma).

E longe vão os tempos (década de 50) em que Rui Ramos cobria de glória o Belenenses e era, provavelmente, a figura maior do atletismo nacional de então.

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Tendo obtido vários títulos, ao longo dos anos, no Salto em Comprimento e no Triplo Salto, Rui Ramos viveu em 1952 o seu ano de maior glória. Assim, nesta data, com a marca de 15,54 metros, ele pulverizava o Record Nacional do Triplo Salto por nada mais nada menos do que 78 cms!!! Esse registo constituía, nesse ano, o segundo melhor europeu e o terceiro melhor mundial. Em todos os tempos, até então, era a terceira melhor marca da Europa e a 18ª do Mundo.

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De tanta grandeza se revestiu o feito, que só 14 anos depois, em 1966, esse Record foi batido e somente por escassos sete centímetros. E foram precisos mais oito anos para outros dois centímetros serem acrescentados: nove centímetros em 22 anos!

Neste mesmo ano, Rui Ramos participou nos Jogos Olímpicos de Helsínquia. O resultado ficou aquém do esperado mas, mesmo assim, obteve um magnífico 10º lugar. Na altura, para o nível do Atletismo português, era uma excelente e festejada classificação.

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Dois anos depois, Rui Ramos participou nos Campeonatos Europeus, tendo chegado à final do Triplo Salto. Nesse mesmo ano, foi eleito o melhor atleta português pelo jornal “World Sports”.

Em 1956, aquando da inauguração do Estádio do Restelo, foi ele que transportou a gloriosa bandeira do Belenenses desde as Salésias, de onde foi solenemente arreada, até ao Restelo, onde com a mesma solenidade foi hasteada. Depois, no desfile dos 650 atletas azuis, lá ia ele, com Georgete Duarte, Augusto Silva, César de Matos e Joaquim de Almeida, a ladear o nosso porta-bandeira, nem mais nem menos do que Francisco José Pereira, um dos fundadores do clube, e irmão de Artur José...

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Com toda a justiça, Rui Ramos é sócio de mérito do Belenenses.

domingo, 25 de junho de 2006

BELENENSES SEMPRE: Futuro próximo

O presente, passado recente e futuro próximo do Belenenses é de lama. Mexer na lama, só faz enlamear.

Nem vale a pena estar a falar no meio da alienação alimentada por quem está contente a enterrar o Belenenses, sem mostrar remorsos nem se preocupar com coerências.

Prossegue só à rubrica "Neste Dia, em ...", até à data já previamente decidida.

Obrigado a todos os que amam o grande Belenenses e um abraço particular aos que não suportam tanta pequenez e detestam práticas pidescas.

Neste dia, em . . .

2005 – Belenenses conquista título de Campeão Nacional de Sevens (Râguebi), ao bater na final o CDUL por 31-19

Em 2004/05, o Belenenses classificou-se no terceiro lugar do Campeonato Nacional de Râguebi, em Seniores. Na Taça de Portugal chegou à final mas não conquistou o troféu que ficou nas mãos da equipa de Direito.
Não foi uma época brilhante, longe disso dados os pergaminhos da modalidade no Clube, mas foi uma classificação que se pode considerar honrosa.

Nos escalões de formação o cenário foi bem mais animador. Vitória de Iniciados e Juvenis nos respectivos Campeonatos Nacionais, o que bem atesta a vocação formadora desta modalidade no Belenenses.

Na variante de «Sevens», em Seniores, o campeonato foi disputado no sistema de concentração, com a presença do Belenenses e das equipas: CDUL, Direito, Cascais, Oeiras, Agronomia, Técnico, UTAD, Lousã e Santarém

Seria nesta competição que o Belenenses viria a conquistar o único título da época, no escalão, ao concluir uma caminhada 100% vitoriosa, iniciada na primeira fase contra as equipas do Cascais (por 24-19) e do Lousã (por 26 -7). Nas meias-finais venceria a equipa de Direito por esclarecedores 31-19. Refira-se que o Direito venceu nessa época a Supertaça a Taça de Portugal e o Campeonato Nacional, pelo que neste jogo se deu uma pequena desforra contra uma equipa que procurava o pleno.

Na final o Belenenses, devido ao elevado número de jogadores ausentes, na sua maioria por lesão, actuou desfalcado dos seus mais conhecidos jogadores. Não seria isso impedimento para mais uma esclarecedora vitória, curiosamente pelo mesmo resultado que na meia-final, desta vez contra a equipa do CDUL.

Sagraram-se Campeões Nacionais os seguintes jogadores Belenenses:
Miguel Mata Pereira (o capitão), João Mirra, Sebastião Cunha, Salvador Cunha, Francisco Cunha, João David, Pedro Silva, Diogo Castro, Gonçalo Lucena, Pedro Jorge e Diogo Castro.

sábado, 24 de junho de 2006

Neste dia, em . . .

1900 – Nasce Octávio de Brito

Por Álvaro Antunes

Octávio de Brito, um Presidente à Belenenses!

Foi o meu presidente nos anos de 1945 e 1947. Advogado dos mais categorizados. Culto. Redigia admiravelmente. Formámos um “duo” unido com muita amizade e confiança. O Belenenses foi campeão nacional, o Belenenses atravessou um dos períodos mais brilhantes do seu historial.
(Acácio Rosa referindo-se a Octávio de Brito, em “Factos, Nomes e Números da História do Clube de Futebol “Os Belenenses” 1960-1984, 2ª Parte)

Filho de António José Luís de Brito e de Maria da Anunciação da Fonseca, Octávio da Fonseca e Brito nasceu no Paul (Covilhã) a 24 de Junho de 1900.
Já em Lisboa, estudou no Liceu Camões, onde se revelou estudante de altos recursos.
Cedo começou a acompanhar o Futebol, que se começava a afirmar como um desporto de cariz popular. O seu ídolo era o grande Artur José Pereira, que seria considerado “o melhor futebolista português de todos os tempos” por Cândido de Oliveira e por Ricardo Ornelas. Quando mestre Artur decidiu fundar um grande clube de futebol em Belém, o Clube de Futebol “Os Belenenses”, Octávio de Brito passou a acompanhar o novel clube, vindo posteriormente a tornar-se seu sócio.

Formado, primeiro, em Ciências Económicas e Financeiras, e depois em Direito, exerceu o professorado no Ensino Técnico, e foi distinto causídico no cível. Como contabilista, fez parte da Comissão das Obras das Águas de Lisboa, vindo depois a ser administrador da Companhia das Águas.

Em Janeiro de 1945, Octávio de Brito, sem que antes tenha exercido qualquer cargo directivo, assume a presidência do Clube. Acompanhou-o, como Vice-Presidente, o incansável Acácio Rosa, seu amigo e admirador.

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Seria durante esta sua gerência, numa Assembleia-Geral realizada a 7 de Março de 1945, que o dia 6 de Setembro passaria a ser considerado “Dia da Saudade Belenenses”, em memória de Artur José Pereira.

A 25 de Março de 1945, o Belenenses viu-se afastado da luta pelo título, a quatro jornadas do fim do campeonato, por uma das mais escandalosas arbitragens de que há memória! Foi numa partida disputada no Campo do Lumiar frente ao Sporting. O árbitro Domjngos Godinho anulou de forma incrível dois golos à nossa equipa e expulsou ainda o nosso jogador Artur Quaresma, depois deste ter sido violentamente agredido por um adversário. O Belenenses, apesar de ter marcado três golos, perderia por 2-1.

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O Clube protestou de forma veemente! No dia imediato ao sucedido, a Direcção presidida por Octávio de Brito emitiu o seguinte comunicado:

A Direcção do Clube de Futebol “Os Belenenses”, reunida em sessão extraordinária, tomou as seguintes deliberações;

1.º - Protestar o desafio realizado no passado domingo com o Sporting Club de Portugal;

2.º - Louvar o jogador Mariano Amaro, capitão da equipa, pela superior orientação e grande desportivismo, revelados no mesmo desafio;

3.º - Agradecer à Imprensa portuguesa a forma compreensiva e de carinhoso conforto que nas suas notícias teve para com os nossos jogadores;

4.º - Saudar em todos os associados o desportivismo do clube e afirmar-lhes o propósito de prosseguir sem desânimo no seu trabalho em prol do progresso moral e educativo do desporto.


No mesmo dia, foi enviado o seguinte protesto à Federação Portuguesa de Futebol:
Lisboa, 26 de Março de 1945

Ex.ma Comissão Administrativa da Federação Portuguesa de Futebol
LISBOA

Ex.mos Senhores:

O Club de Foot-Ball “Os Belenenses”, vem apresentar a V. Ex.as para ser apreciado por quem de direito o seu protesto sobre a validade do jôgo efectuado em 25 do corrente com o Sporting Club de Portugal, no Campo do Lumiar, pelas razões que passa a expor:

1.º - O árbitro Sr. Domingos Godinho por duas vezes, uma na primeira parte, outra na segunda, validou pontos marcados pela nossa equipe e tomou a sua decisão por forma pública e notória ordenando a colocação da bola no centro do terreno.
Porém, contráriamente ao que se dispõe na lei V, que ordena que a decisão árbitro em questões de facto relacionadas com o jôgo é irrevogável, o mesmo árbitro revogou a decisão que havia já tomado, e substituiu-a por outra contrária também às leis do jôgo por assinalar faltas inexistentes.

2.º - O árbitro foi influenciado na revogação das suas decisões directa ou indirectamente por indivíduos estranhos à competição, sendo de notar o facto de o maçagista do Sporting Club de Portugal, de nome Manuel Marques ter sido visto por forma ostensiva dirigir-se ao fiscal de linha Guido Gomes Rosa com quem conversou, e, depois disso, dirigiu-se aos jogadores do Sporting aconselhando-os a insistirem junto do árbitro no seu protesto visto que as suas afirmações seriam corroboradas por aquele fiscal de linha. De tal intervenção resultou em grande parte a revogação da decisão que validou o ponto por nós marcado na segunda parte. O mesmo árbitro havia declarado ao jogador Mariano Amaro:
“Nesse ponto não tenho duvidas, vi a jogada”.

É ainda de notar a parcialidade do árbitro assinalada no facto significativo de ter expulso o jogador belenense Artur da Silva Quaresma quando acabava de ser violentamente agredido por um jogador contrário sem que tomasse qualquer atitude para com o seu agressor apesar de pelo agredido, que sangrava de uma extensa lesão, lhe ter sido revelado o que anteriormente se passara. É de estranhar que para este caso o árbitro não tivesse ouvido os fiscais de linha.

Assim deve de concluir-se que foram anulados dois pontos ao Club de Foot-Ball “Os Belenenses” quando os mesmos tinham já sido validados pelo árbitro o que representa manifesta infracção das leis do jôgo e em especial da lei V.

Nos termos do parágrafo 4º do art. 67º ; do Regulamento Geral vem o Club de Foot-Ball “Os Belenenses” apresentar o seu protesto e consequentemente requerer a anulação do jôgo realizado em 25 do corrente entre o Sporting Club de Portugal e o Club de Foot-Ball “Os Belenenses”
”.

Ainda no dia a seguir ao jogo, seria enviado o seguinte ofício à Comissão Administrativa da Federação Portuguesa de Futebol:

Ex.mos Senhores:

Antes de V.Ex.as decidirem na apreciação do boletim do árbitro Snr. Domingos Coelho, que ontem dirigiu o encontro Belenenses-Sporting, entende a Direcção dêste Clube, por seu dever, apelar para V. Ex.as que se procure a verdade dos factos, absolutamente convicta, que as entidades que orientam o futebol português, saberão pôr cobro a situações desprestigiantes, como aquelas que o árbitro acima, acarretou para o desporto nacional.
Infelismente, não é a primeira vez que êste Clube se dirige a V. Ex.as, chamando a vossa atenção para a forma de agir do árbitro em questão.

Recordamos, que num encontro Belenenses-Sporting e precisamente sôbre o goal que se provou irregular e foi validado ao Sporting, que o nosso Clube protestou, motivou um castigo ao Sr. Godinho.
Ontem, o mesmo árbitro, depois duma série de decisões falhas de autoridade, de errados critérios, de anulação de decisões, depois de julgamento ostensivamente firmado, e também, em dois goals marcados pela nossa equipa, trocados por “off-side”, já quando a bola se encontrava na marca para a continuação do jogo e depois de considerados legítimos pelo árbitro, deu à partida descrédito, e perturbou o espírito dos jogadores lesados.

Podíamos apresentar a V. Ex.as as opiniões de Imprensa do Paiz, e por elas se verificaria, quanto de infeliz foi para êste Clube – a única vítima de todos os êrros – a actuação dêste árbitro.
No único desejo que as nossas palavras não sejam a opinião da parte lesada, tomamos a liberdade de transcrever, o que sobre a expulsão do nosso jogador Artur da Silva Quaresma, publica o jornal Diário Popular, de hoje:

“Ao árbitro cumpre, como todos deveriam saber, ter o máximo cuidado com as decisões que toma e, em especial, quando se trate de “goals”, que só pode dar a noção de os validar imediatamente ao lance se tiver a CERTEZA de que êles foram bem alcançados.
Mas ontem o Sr. Domingos Godinho, tergiversando, por duas vezes e exactamente nas mesmas condições, não seguiu essa prática e a verdade é que estragou o jôgo. Nós somos dos que não se esquecem, por sistema, de verberar maus procedimentos de jogadores, mas a verdade é que ontem, a excitação dos elementos do Belenenses só foi criada, directissimamente, por estas decisões do árbitro e por uma outra, a expulsão de Quaresma, logo ao começo da 2.ª parte, em que não foi justo. E não foi justo porque Quaresma tinha acabado de ser atingido com um pontapé intencional num joelho, que sangrava a olhos vistos, e porque aquele jogador faz menção de responder ao adversário, que o maguou, com um pontapé mas não o atingiu. Talvez se o árbitro tivesse consultado um juiz de linha, antes de dar a ordem de expulsão, pudesse ficar com mais consciência de como as coisas se passaram. Mas não o fez, e esse facto, depois de um “goal” anulado, nas circunstâncias que relatámos, contribuiu para um série de excitações que lhe cabia a todo o transe evitar. Evidente que o acto de Quaresma merecia sanção, mas por não ter tido efeitos, o castigo não poderia ser o máximo que se aplica a um jogador.”

Eis o que se passou e que todos verificaram à excepção do árbitro.
Para a injustiça cometida em campo, só resta apelarmos de V. Ex.as, cientes que um jogador internacional, que há pouco, desportivamente e perante a Espanha, nos deu o verdadeiro modêlo de correcção e abnegação, não pode ser uma vítima.
Para os restantes êrros, o nosso Clube apresentará a V. Ex.as o seu protesto de ordem técnica, tudo fruto da acção de um homem e dois auxiliares, que só compremeteram a Corporação dos Árbitros e o Desporto.
”.

Em Abril de 1945, sob o título “VENCER!”, Octávio de Brito abordaria o mesmo assunto no Boletim “Os Belenenses”:

A finalidade imediata de tôda a competição desportiva é a conquista da vitória sôbre o adversário.
Se porém detivermos a nossa atenção sôbre os verdadeiros fins do desporto, fácilmente concluímos que a vitória é o meio soberano atravéz do qual êles se realizam. A vitória é, por assim dizer, o padrão que nos dá a medida do progresso realizado pelo desportista.
E como para vencer é necessário aliar às qualidades atléticas, a ciência do jôgo e a vontade e o brio que animam e embelezam a luta, o progresso constatado, refere-se sempre ao que é físico e ao que é moral.
Pôsto assim o problema, torna-se evidente que o resultado da competição desportiva importa para o vencedor o justo prémio do seu esfôrço, a recompensa da sua aplicação, o reconhecimento do seu valôr, e faz-lhe nascer o desejo de manter, pelo menos no mesmo nível, o seu esforço. Para o vencido a derrota deve sêr um estímulo que o leve a aperfeiçoar sua forma , a trabalhar mais e melhor para o conseguimento da vitória.
Para ambos, afinal, a competição traduz-se em um factor de aperfeiçoamento, ou seja mais um meio do que um fim, pois é aquêle aperfeiçoamento do desportista a única e verdadeira finalidade do desporto..

Ora para que esta e única verdadeira finalidade se não adultere, necessário se torna que a atribuição da vitória seja feita com justiça e imparcialidade.
Dependendo o resultado oficial da luta desportiva da decisão de terceiros, que orientam a competição, julgam as faltas e a validade dos pontos obtidos pelos contendores, é indispensavel e fundamental que êsses indivíduos tenham idoneidade moral e capacidade técnica para o desempenho do cargo.
Na verdade da sua actuação resulta em grande parte, senão na maior parte, o êxito da missão do desporto.

Sem julgamento sério e verdadeiro não há possibilidade de atribuir a vitória com justiça. E quando o vencedor não é designado de harmonia com o julgamento rigoroso das leis do jôgo, a competição não só perde todo o seu interêsse, mas falseia-se ainda em absoluto a finalidade de que ela é o meio por excelência.
A primeira coisa que se perde, imediata e fatalmente, é o conseguimento da acção educativa do desporto.

Os sentimentos e reações que o errado julgamento produz no público desportivo, atreito a apaixonar-se e fácilmente impressionável, não são, de certo, os que mais se coadunam com a possibilidade da missão educativa do desporto.

Os adeptos do grupo lesado são levados, por natural reacção, a considerar da maior gravidade o êrro cometido e de grande importância a sua influência no resultado final. Pelo contrário os partidários do club favorecido têem a natural tendência de minimisar a vantagem voluntária ou involuntáriamente concedida aos seus favoritos.
Êstes dois afastamentos em sentido contrário cavam entre os dois partidos um abismo que pode, pela continuação, tornar-se difícil de preencher. E quando assim sucede perde-se por completo a serenidade necessária para apreciar com justeza a beleza da luta e, ainda mais, a paixão que ela inspira em logar de servir nobres estímulos vem, pelo contrário, perverter todos os sentimentos que a rodeiam.

Como se vê é da maior gravidade o problema e urge tomar medidas necessárias para o solucionar.
O que se passou na infeliz tarde de 25 de Março no campo do Lumiar, ilustra, melhor do que as palavras acima escritas, a verdade do que afirmamos.
Sem a correcção dos jogadores e sem a feliz actuação dos dois capitães dos grupos adversos, a incompreensível actuação do árbitro poderia ter provocado as mais desagradáveis consequências para o prestígio e grandeza do desporto.

Apesar de tudo alguma coisa de amargo ainda ficou e de que não é culpado nenhum dos vinte e dois homens que lutaram nessa tarde sombria de 25 de Março.
Os nossos homens não saíram conformados com a derrota, porque a julgaram imerecida; e os rapazes do Sporting – façâmos essa justiça ao seu brio e pundonor de desportistas que todos apreciamos – não ficaram com a vitória que teriam desejado, pois decerto a ambicionavam sem ser empanada por dúvidas ou incidentes da natureza dos que se passaram.

Mas não é só no futebol que o mal medra e ameaça comprometer a finalidade do desporto.
Muitas outras modalidades atraem hoje a actividade dos atletas e começam a prender o interêsse do público.
Nessas também é necessário resolver o problema, logo de início, formando e educando julgadores competentes e idóneos.

Trabalhemos pois todos com afinco para conseguir que o julgamento em desporto se aperfeiçôe por forma a impôr-se e prestigiar-se aos olhos dos jogadores e do público.
Com isso todos lucraremos, porque lucrará imenso o desporto.

Pela nossa parte podemos afirmar que os atletas do nosso Club têm como aspiração ardorosa aperfeiçoar-se e progredir por forma a vencerem com mérito e com justiça e, assim, pretendemos que as vitórias que por nós fôrem legitimamente conquistadas nos pertençam como justo prémio do nosso esfôrço. E só essas são por nós desejadas, porque as outras não as ambicionamos, nem as queremos, até pela simples razão de que as primeiras são as únicas que nos servem!


Foi nesta época, a 1 de Abril de 1945, na penúltima jornada do campeonato, que o Belenenses goleou a Académica por 15-2. Na última jornada, a 8 de Abril, venceríamos o Salgueiros por 14-1. Estes dois resultados, são ainda hoje, as duas maiores goleadas do Campeonato Nacional.

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O espírito empreendedor de Octávio de Brito e o prestígio que o Belenenses gozava na altura, levaram o Clube a estreitar relações com o Real Madrid. Assim, no dia 15 de Maio de 1945, a nossa equipa deslocou-se a Madrid para participar na Festa de Homenagem ao futebolista Chus Alonso. O resultado final foi um empate a duas bolas, e sobre o que então se passou, escreveria o próprio Octávio de Brito:
A saída do primeiro grupo do Belenenses para jogar em Madrid com uma das melhores, senão a melhor equipa de Espanha, representou um empreendimento que não classificaremos de audacioso, porque foi conscientemente ponderado e medidos todos os riscos que se corriam.
(...)
A segunda parte do desafio acreditou em Madrid o Belenenses como uma equipa de jogo excepcional e verdadeiramente cientifico. E bem merecido foi o conceito.
Raras vezes nos será dado ver uma tão perfeita harmonia entre todos os compartimentos da equipa e um brilhantismo de execução que foi inigualável.
O cavalheiresco público madrileno sublinhou o esforço e o valor dos nossos rapazes com aplausos frenéticos de indubitável sinceridade e que quase nos fizeram esquecer de que nos encontrávamos em país estranho, embora verdadeiramente amigo.

As apreciações que ouvimos depois do desafio a categorizados dirigentes espanhóis, e que eram despidas de todo e qualquer propósito de cumprimento, encheram-nos de orgulho pelo comportamento admirável desses rapazes, a maioria deles estreantes em desafios de responsabilidade jogados em casa alheia.
Por todos os títulos o baptismo foi auspicioso e abre aos Belenenses largas perspectivas de intercâmbio internacional, tão propícias para o aperfeiçoamento e melhoria do nosso futebol, que se acredita já como um dos melhores da Europa.

É claro que as nossas responsabilidades aumentaram enormemente e precisamos, da compreensão e do auxílio, de todos os Belenenses para as enfrentarmos com coragem e decisão iguais àquelas com que nos batemos em Chamartin no dia 15 passado.
”.
(em “Factos, Nomes e Números da História do Clube de Futebol “Os Belenenses” 1919-1960, Acácio Rosa)

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Dezasseis dias depois, a equipa do Real retribuiu a visita. Entrevistado pelo jornal “A Bola” de 31 de Maio de 1945 sobre o encontro a realizar nesse dia à tarde nas Salésias, o então presidente do Clube afirmava:
Contamos ganhar, se a nossa equipa fizer uma exibição igual à de Chamartin.
O jogo de Chamartin dividiu-se em duas partes, uma em que os espanhóis marcaram os “goals”, outra em que os portugueses foram nitidamente superiores. Nesta segunda parte, o público, de uma correcção inexcedível, não regateou aplausos sobre aplausos aos nossos jogadores. O futebol produzido pelo Belenenses agradou e foi brilhante.
”.

Os melhores da equipa lisboeta foram... ” pergunta o jornalista.

Responde Octávio de Brito: “Todos bons. Cada qual cumpriu o melhor que pôde. Feliciano, Quaresma e Rafael, principalmente o primeiro, actuaram muito bem.

Pode considerar-se feliz a exibição do Belenenses?” (pergunta do jornalista).

A nossa visita não podia ser mais auspiciosa. Tratava-se do jogo entre os sub-campeões do campeonato da Liga e do grupo que melhor futebol produz em Espanha, segundo a opinião dos técnicos. E o Belenenses em batalha cerrada, obteve resultado honroso.”.

Ainda sobre a estadia em Madrid, o Dr. Octávio de Brito prosseguiu:
O acolhimento foi o melhor que se podia esperar. Fomos recebidos cordialissimamente, e tudo leva a crer que esta saída do Belenenses ficou bem assinalada por laços de franca camaradagem.

Mais à frente o jornalista pergunta: “Tem, pois, grandes esperanças no resultado?
Octávio de Brito afirma: “As esperanças no resultado são muito aleatórias. Possuímos uma boa defesa, uma razoável linha média e bons avançados.
Precisamos jogar como em Madrid e é quanto basta. Isso não será muito difícil. O adversário é perigosíssimo mas muito leal. Usam do poder atlético sem incorrecções. O nosso público há-de incitar os jogadores, tanto mais se eles repetirem a proeza de Chamartin, trabalhando a bola com mestria, passando em condições e em profundidade


A pugna vai constituir um espectáculo memorável?” pergunta o jornalista a terminar.
Sim. Se tudo sair bem como nós desejamos.” concluiu Octávio de Brito.
O Belenenses venceria o Real Madrid por 1-0, com um golo de Rafael.

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No final do campeonato de 1944/45, ficámos em 3º lugar, o mesmo que ocupávamos quando Octávio de Brito tomou posse em Janeiro de 1945.

Em Outubro de 1945, com Octávio de Brito à frente dos destinos do Clube, o Belenenses sagra-se pela sexta vez Campeão de Lisboa, batendo os rivais do Sporting e do Benfica. O feito, conseguido a duas jornadas do fim da prova, era assim enaltecido na imprensa da época:

Raras vezes o título terá sido tão merecidamente adjudicado, e o Belenenses tem sobrados motivos para estar orgulhoso da sua proeza. Dêle pode dizer-se que tem vencido e convencido”. (jornal “A Bola”);

Os Belenenses, sem perigo de controvérsia, está em forma excelente, é no momento actual a melhor equipa de Lisboa. É um grupo igual de ponta a ponta. Um bloco, onde há homogeniedade, organização, alegria a jogar”. (“Mundo Desportivo”);

As suas exibições e a afinação da equipa já o tinham sagrado campeão de Lisboa de 1945-46 aos olhos de todos, adeptos e adversários. O decorrer das coisas fê-lo ficar com a palma da vitória a duas jornadas do fim”. (“Diário Popular”);

O Belenenses está no cume, joga primorosamente, praticando um jogo sem rival, no presente momento entre nós”. (“Diário de Lisboa”);

O Belenenses continua a ser o grupo n.º 1, em resultados e em jogo. Às vezes os teams ganham e não convencem. Não é o caso dos azuis. O Belenenses é o brilho de um grupo que sabe jogar e executar com arte”. (Revista “Stadium”).

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Durante o ano de 1945, o Clube bateu todos os records na obtenção de títulos. No Campeonato Nacional de Futebol de 1945/46, quando terminou o mandato de Octávio de Brito, a nossa equipa estava em 1º lugar.
Vencemos ainda o Campeonato de Lisboa de Futebol, nas categorias de Honra e de Reserva e fomos Vice-Campeões de Futebol, em Juniores, também no Campeonato de Lisboa.
Nesta sua gerência, cinco dos nossos futebolistas, representaram a Selecção Nacional: Mariano Amaro, Serafim das Neves, António Feliciano, Rafael Correia e Artur Quaresma. As contas do exercício deste mandato fecharam com um lucro de 237.981$37.

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Para termos uma ideia do lugar que o Belenenses ocupava no conceito do mundo futebolístico e desportivo de então, veja-se o que escrevia o jornal “A Bola”, a 24 de Dezembro de 1945, na introdução a uma entrevista, onde Octávio de Brito dava a conhecer a sua intenção de abandonar a direcção no final do mandato:
Tem interesse jornalístico, neste momento, ouvir os dirigentes sobre a sua acção no ano de 45. Alinhar números e resultados. Historiar, sumariamente, um ano de Trabalho. Que fizeram? Que deixaram de fazer? Que projectos há? Tudo isto tem interesse popular, tão grande é hoje a massa desportiva
(...)
Comecemos pel’ Os Belenenses. Campeão de Lisboa 1945/46. Justifica-se a primazia. Outros títulos podiam invocar-se... Belém foi o berço do nosso futebol. O Belenenses, tem sido alfobre de dinastia de grandes jogadores: Artur, Pepe, César, Augusto Silva, Amaro, Simões, Rafael, Quaresma, - um nunca acabar... E de dirigentes: Comandante Reis Gonçalves, dr. Virgílio Paula, coronel João Luís de Moura, comandantes Rodrigues Tomás e António Maria Ribeiro, dr. Constantino Fernandes, dr. Coelho da Fonseca, Salvador do Carmo, Armando Felipe, Mega, Buttuler e tantos outros.

O dr. Octávio de Brito, advogado de renome, inteligência vivíssima, cavalheiresco, autêntico espírito desportivo, é o último de uma série dedicadíssima de dirigentes que deram à ideia de Artur Pereira, de há um quarto de século, as perspectivas actuais de um grande clube!


Na entrevista, o então presidente do Clube afirmava:
Não sabemos ainda se o clube poderá ficar no campo actual, devido os estudos da urbanização da cidade. O ideal seria abandonarmos o campo actual, e instalarmo-nos definitivamente no verdadeiro campo das Salésias – onde nasceu o futebol...

Nos terrenos fronteiros ao campo, onde hoje é campo de manobras dos regimentos do bairro?” (pergunta o jornalista).

Exactamente. No campo das Salésias, o autêntico. A preferência não seria apenas tradicional... A área é vastíssima. O vasto quadrilátero, com acesso de quasi todos os lados, permitiria a instalação desafogada de um estádio local, onde podia fazer-se tudo – com carácter definitivo... Enquanto, porém, não for concluído o estudo do plano de urbanização, afectando aquela zona da cidade, a localização de quartéis, etc. – nada pode fazer-se. Na incerteza de ficarmos ou não no campo actual, há que aguardar... Se continuasse neste lugar...

Se continuasse?...” (interroga o jornalista).
Octávio de Brito esclarece: “Não posso continuar à frente do clube. Não tenho tempo disponível.

Agastamento? ” (pergunta o jornalista).
De modo algum. Ao contrário. Guardarei excelente recordação da minha passagem pela direcção do clube. Dos sócios, dos jogadores e dos dirigentes só tenho recebido gratíssimas provas de estima e de apreço. Mas, é impossível, nas condições actuais ser dirigente...

E desenvolve a sua ideia:
Os clubes, de um modo geral, têm uma estrutura que foi óptima há 25 anos... Nos tempos do amadorismo integral... Quando os clubes eram pequenas instituições da era do puro idealismo desportivo... Nessa altura os dirigentes podiam ser, simultaneamente, atletas e dirigentes, escriturários e contínuos... Hoje, não. O desporto evoluiu, e desenvolveu-se a um nível tal que não é possível, as horas vagas das nossas actividades profissionais chegarem para se exercer toda a acção reclamada pelos clubes. Há que dar nova estrutura. Ao lado dos dirigentes, tem de haver um corpo de funcionários, de funções quasi paralelas aos directores para se ocuparem da administração e da própria direcção das actividades do clube – sob a supervisão dos directores. Não poderá ser de outro modo.

Na fase actual, de duas uma: ou os dirigentes, descuram as suas actividades profissionais para acudir ás exigências do clube, ou não se preocupam com a sua função de dirigentes senão na medida em que dispõem de tempo livre e, nessas condições o clube anda um pouco ao desbarato...


O remédio?” (pergunta o jornalista).
Vou procurar encontrá-lo no novo Estatuto que vou oferecer ao clube! A experiência de um ano de trabalho no meu clube deu-me ideia exacta das deficiências da estrutura actual em muitos aspectos: administração, orientação técnica, regime dos jogadores, etc. Há que remediar tudo isso. Dar ao clube meios de caminhar progressivamente e aos dirigentes possibilidades de dirigirem efectivamente.

Não estamos, hoje – prossegue Octávio de Brito – como quando o clube começou... O amadorismo desapareceu. A situação é muito diferente... Enquanto não existe regulamentação própria, de carácter geral, há que disciplinar as relações “clube-jogadores”. E fazer isso com decência e com sinceridade. Ver as coisas como elas são na realidade. E a realidade é não existir amadorismo. Portanto, há que regulamentar os direitos e deveres dos jogadores e dos clubes. Não pode viver-se em regime de imprecisão e de injustiças... O critério não pode ser oscilante, de época para época, de director para director, porque isso gera perturbações de toda a ordem desde a disciplina interna ao rendimento do atleta...

A experiência – prossegue – deu-nos óptimo resultado. No início da época estabelecemos um “modus vivendi” com os jogadores, caracterizado pela certeza, estabilidade e honestidade da situação. Uma base certa mensal, um prémio por jogo e, mais, um prémio fixo, no final de cada prova, segundo a classificação obtida pela equipa. Estabelecido isto, de comum acordo, cessou todo o motivo de querela entre jogadores e clube.
Este caso dos jogadores, é um exemplo apenas. Mas há que regular e estabelecer em normas fixas todas as actividades: dos dirigentes, dos técnicos, dos jogadores, dos funcionários e não deixar tudo isso ao critério pessoal...

(...)

A entrevista prossegue com o balanço de um ano de trabalho. Octávio de Brito consulta números e afirma:
Sob todos os aspectos esta gerência foi excepcionalmente feliz.
- O clube não tem dívidas!;
- O número de associados subiu de 5 para 7 mil!;
- As receitas normais e extraordinárias cresceram muito;
- As despesas não aumentaram na proporção das receitas;
- A gerência deve findar com um saldo de 150 contos!;
- O futebol, sempre com uma despesa superior ao produto do rendimento dos jogos, deve este ano dar saldo positivo;
- Pela primeira vez o Belenenses figura como o clube com maior receita no Campeonato de Lisboa;

Dois factores pesaram – esclarece Octávio de Brito– na feliz situação financeira do clube:
- Um, o aumento da cotização dos sócios, que subiu este ano para 300 contos;
- Outro, a visita do Real Madrid, que produziu uma receita líquida de 150 contos.
Somando todas as verbas, a receita global deve ultrapassar um milheiro de contos – quasi 3 contos por dia de rendimento!

Desportivamente o ano foi felicíssimo. No futebol, houve dois factores culminantes: a brilhante visita do Belenenses a Madrid e a conquista do título de campeões de Lisboa.
Nos outros desportos:
- Pingue-pongue: Campeão de Lisboa, I Divisão em 1ª, 2ª, 3ª e 4ª categorias;
- Râguebi: Campeão de Lisboa;
- Basquetebol: Campeão Nacional, Campeão de Lisboa nas categorias de honra e juniores; vencedor da Taça de Honra, Campeão de Lisboa em reservas, 2ª categoria, Juniores;
- Atletismo: em 60 metros, estreantes, 5x80 e 80 metros e em comprimento, principiantes;
- Natação: Ana Linheiro bateu três records nacionais;
- E actividade em Andebol, Hóquei e Voleibol.
Ao todo um pequeno exército de 600 atletas em actividade.


Na fase final da entrevista, o jornalista pergunta:
E há corrente de oposição no clube?
Depois de sorrir, Octávio de Brito declara:
E depois... É possível. Não claramente estruturadas. Mas é possível...
Não é possível, em cada clube reunir, para todas as decisões, unanimidade... E não há prejuízo em que assim seja. Ao contrário. É um estimulante... Mas, confesso, não tiveram grande vulto. Que eu saiba, ao menos...


Nomes?...” Interroga o jornalista.
Não sei bem. Dizem-me haver um grupo: Salvador do Carmo, Eugénio Moita, Jaime Guedes; outro, Buttuller, Mega, etc. Mas isso creio vem de longe. Quando me convidaram, disseram ser até para neutralizar essas duas correntes que às vezes se têm entrechocado... Mas, durante a minha gerência, creio que reinou calma... A Assembleia-Geral o dirá. ”.

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No final da época desportiva, já em 1946 sob a gerência do Dr. Constantino Fernandes, o Belenenses venceria o Campeonato Nacional. Uma vitória preparada e iniciada por Octávio de Brito...

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Em 1947, mais uma vez acompanhado por Acácio Rosa na Vice-Presidência, regressa à liderança do Clube.
Em sua homenagem, o sócio V. Claro fez os seguintes versos:

DR. OCTÁVIO DE BRITO

É caso p’ra se dizer
que voltou em boa altura
ao lugar de antigamente...
Foi presidente... a valer!
E o “calix da amargura”
vai bebê-lo... docemente!!!

Belém! Belém! Mais Belém!
Sempre (e sempre!) belenense:
e presidente – também...
Se o dr. a turba vence
ele lá sabe! E sabe-o bem!

Vai haver orientação
verdadeiramente nova?!
É uma compensação...
Mas os segredos... de alcova
ficarão na tradição!

Belenenses vai subir,
cada vez, para mais alto?!...
O dr. é capaz de ir
ao cimo do planalto
– pois tem “mão”... no conduzir!

Um mestre, enfim, que ressurge,
com saber e autoridade...
... como quase ninguém tem!
Algo de novo surge
p’ra luz e claridade
no horizonte de Belém!!!


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Em Junho de 1946, a Câmara Municipal de Lisboa havia informado o Clube, de que este teria de abandonar as Salésias dentro de seis anos. Depois de tomar posse para aquele que seria o seu segundo mandato, Octávio de Brito, consciente da gravidade de tal decisão para o futuro do Clube, escrevia no Boletim “Os Belenenses” de Fevereiro de 1947, sob o título “Uma Bandeira”:
Não conhecemos sacrifício mais grato do que o consentido em prol de uma bandeira.
Seguir a bandeira que elegemos, alheios a interesses mesquinhos, por simples e pura devoção, consubstancia ideal gerador de muitas alegrias e satisfações de alma, mas implica também a necessidade dos sacrifícios necessários para manter bem alto e orgulhosamente desfraldado o nosso guião.

Só podemos avaliar o grau do nosso ideal pala medida em que somos capazes de por ele nos sacrificarmos; e esta medida, por sua vez, depende da fé que ele nos inspira.

(...)
O C. F. B. encontra-se num momento grave da sua vida.
Não constitui segredo, por já públicamente revelado que o seu campo atlético, aliás já hoje insuficiente para as necessidades acima apontadas, vai ser imolado às exigências do plano de urbanização da Capital do Império.
A fisionomia de Belém, a sua população, a própria cidade de Lisboa, enfim, só têm a lucrar com a execução dos melhoramentos projectados
[N.R.: ainda hoje, estamos à espera da sua execução...]. Mas para que eles não conduzam a uma amputação irremediável é necessário que o Belenenses encontre a possibilidade de reconstruir o seu campo em sítio definitivo, permitindo-lhe assim continuar a sua utilíssima vida, cujos limites de progresso e de expansão estão muito longe de ser atingidos”. [N.R.: hoje, estão muito mais longe do que estavam em 1947...].
(...)
Se não nos faltar o apoio com que, legitimamente, devemos contar, realizaremos a grande ambição de todos os belenenses e o novo campo atlético, embora sem luxo, ficará dotado com os elementos indispensáveis para preencher as altas finalidades de cultura e de educação desportiva por cuja perfeita realização todos anseamos.
Estádio moderno, num bairro que se moderniza e encerra, ao mesmo tempo, as recordações mais gloriosas da época de ouro das descobertas.
Bandeira onde sangra a mesma Cruz de Cristo que palpitou no pano das caravelas que abriram ao mundo o caminho de mares ignotos; tal é no seu simbolismo a gloriosa bandeira dos Belenenses.
A NOSSA BANDEIRA!


Na época de 1946/47, em juniores, conquistámos os títulos de Campeão de Lisboa e de Portugal em Futebol.

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A nossa equipa sénior de futebol, depois de um início comprometedor – quando Octávio de Brito tomou posse, estávamos na oitava posição – terminaria o campeonato de 1946/47 em quarto lugar.

Fazendo um balanço da época, Octávio de Brito escreveu no Boletim mensal “Os Belenenses” em Junho de 1947:
Terminou a época oficial de futebol de 1946-47 no meio de um geral desinteresse e sem ter deixado saudades.
(...)
Os Clubes que, como o Belenenses, concorreram com avultado número de jogadores para o grupo nacional viram, com frequência, interrompidos os seus horários e perturbados os trabalhos e treinos de conjunto, indispensáveis para a boa preparação das equipas.
Este aspecto da questão não pode deixar de ser ponderado nos programas a estabelecer para o futuro.

(...)
Os resultados financeiros, dentro de um tal quadro, foram, como não podia deixar de ser, simplesmente desastrosos.
Sucederam-se em grande número, os encontros que deram déficit de bilheteira, agravado ainda para o Club pelos seus encargos próprios e fixos.
Os desafios que poderiam cobrir os maus resultados dos restantes, tiveram receitas muito inferiores ao que era lícito prevêr, em vista dos apuros feitos em outros anos.

(...)
A este panorama de ordem geral ainda há a acrescentar, para o C. F. B., certos aspectos particulares que justamente desgostaram os seus adeptos e tornaram mais angustioso o calvário que, neste período, tiveram de percorrer os seus dirigentes.
A ineficácia dos dianteiros da nossa equipa de honra não pode explicar-se sómente por um abaixamento de forma.
Se fôsse esta a causa única prontamente se teria remediado o mal, investigando as suas determinantes e tomando-se depois as medidas necessárias para o debelar. A sua origem infelizmente, deve filiar-se em aspectos de natureza muito mais grave. Na maioria dos casos a condição física dos jogadores era o que menos contribuía para a inferioridade da exibição. A quebra de vontade e um desapêgo e desinterêsse pela luta, que bulia com os nervos dos espectadores mais calmos, foram os factores principais das muitas derrotas que sofremos.
A defesa, apesar do espírito de luta que sempre demonstrou, foi impotente para suportar a enorme sobrecarga de trabalho que o mau rendimento da linha avançada lhe acarretava.
Com os elementos que havia, e eram os únicos que poderiam ser utilizados durante a época, tentou-se o que era possível para ver se poderia atenuar-se o mal.
Uma ou outra vez a linha avançada, apesar de integrada por elementos menos categorizados, mostrou aquilo que era capaz de fazer quando tinha vontade de jogar. Esta circunstância, bem demonstrativa de que os avançados tinham recursos para produzir bom jogo, tornavam ainda mais desesperante as más exibições que se seguiam. Apesar de tudo conseguiu-se que a classificação subisse de 8.º para o 3.º ex aequo com o Porto e o Estoril.
Este estado de coisas não pode persistir e estão já tomadas ou em preparação as medidas destinadas a modificá-lo radicalmente.

Depois de ouvidos os orgãos técnicos do Club, serão feitos os horários da ginástica, dos treinos de conjunto e das sessões de preparação individual e de inspecção médica.
Paralelamente serão completados os regulamentos necessários para definir com clareza os direitos e obrigações dos jogadores e para estipular as sanções indispensáveis ao rigoroso cumprimento dos horários e dos deveres que a cada um competem.

A renovação de alguns elementos permitirá ao novo treinador, Alexandre Scopeli, dispôr do número de atletas necessário para formar grupos disciplinados, eficientes e com a duração precisa para podermos mais tarde continuar a renovação atravez dum processo normal que terá a sua origem na escola de jogadores e será continuado pelas equipas de juniores, equipas em preparação (2.as e reservas) e finalmente a consagração máxima do atleta: o seu ingresso na equipa de honra.
A selecção natural que se irá dando nos vários graus de preparação será garantia suficiente de que os jogadores chegados à categoria de honra tem as indispensáveis qualidades para o desempenho do lugar.
E confiêmos que o pesadêlo deste ano não volte a afligir-nos.
A nossa firme esperança é a de que esta final de época foi também a final dum pesadêlo.


Em Julho de 1947, a Direcção liderada por Octávio de Brito promoveu um jantar de homenagem a Augusto Silva, que pedira a demissão do cargo de treinador. No “Francfort do Rossio” juntaram-se os directores e jogadores do Clube e os jornalistas desportivos que compareceram em massa. O então presidente do Belenenses elogiou o homenageado, afirmando o grande conceito em que o Clube tinha Augusto Silva, “uma das suas grandes figuras de todos os tempos”.

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Depois de uma época considerada como um pesadelo, ainda em Julho, no Boletim “Os Belenenses”, Octávio de Brito assinava um artigo onde falava do programa que a Direcção preparara para fazer face ao que havia ocorrido:

Com o início da nova época vai também começar no nosso clube a execução de um programa que a direcção tem vindo a estudar preparando, ao mesmo tempo, os elementos essenciais para lhe dar realização.
(...)
É sabido que uma direcção, quando toma as rédeas do poder, em pleno decurso do campeonato nacional, pouco mais pode fazer, até ao defeso, do que preparar os elementos da sua acção futura. No resto tem de limitar-se a medidas de emergência, procurando remediar os males que porventura haja encontrado dentro das oportunidades que se lhe apresentem.

A ciência de que isto sucede assim, colhida na dura experiência de uma direcção transacta, levou-nos, mal havíamos assinado o termo de posse, a pensar principal e fundamentalmente no futuro do clube, sem descurar evidentemente a aplicação dos remédios com que, na medida do possível, se ia procurando acudir aos males mais instantes.

Á experiência do passado juntaram-se as duras realidades da época finda, tudo se conjugando para que sentíssemos plenamente o peso das responsabilidades que havíamos assumido.
De há muito que o contacto mais directo com os problemas internos do futebol, confirmando muitas coisas que pensávamos e revelando-nos factos que ignorávamos e nem sequer havíamos suspeitado, nos tinha dado a firme convicção de que era necessário, em um clube com as pesadas responsabilidades desportivas de “Os Belenenses”, enveredar por novos caminhos, perfeitamente definidos, deixando de se viver ao sabor das oportunidades de momento ou da esperança em milagre salvador que nos livrasse de dificuldades.

Nem o ideal desportivo dos Belenenses, tal como nos habituámos a compreendê-lo e a querer-lhe, se poderia compadecer com um tal estado de coisas.
Tornava-se, na verdade, estranho que num clube como o Belenenses, que vai buscar ao futebol os factores de maior prestígio e expansão, não houvesse uma aprendizagem organizada deste desporto e antes se tomassem as inscrições ocasionais de rapazes que já haviam ultrapassado a idade em que se deve começar a aprender, ou as revelações – tantas vezes ilusórias – de habilidades serôdias, como fontes de recrutamento dos jogadores de futebol.

(...)
Não pudemos contudo descurar o presente. Novos atletas vindos de outros clubes envergarão a camisola azul. Veem todos êles de vontade e para servirem com dedicação. Serão por isso bem vindos. Ser-nos-ia com certeza muito mais grato que todos êles fossem de formação puramente belenense, mas as circunstâncias, que de todos os sócios são conhecidas, levou-nos a aceitar gostosamente o concurso de atletas que, todos êles, repetimo-lo ingressam no Belenenses com sincera simpatia pelas suas cores e pelo seu ideal.

Este concurso não contraria a orientação que preconisamos. Pelo contrário a sua necessidade revelou-nos a gravidade do mal e a urgência em o remediar.
Criámos por isso, como já foi dito a escola de jogadores.

(...)
É evidente que a escola não resolverá todos os problemas das equipas de futebol. Há-de solucionar porém a sua maior parte; pelo menos para transformar o problema das transferências de uma regra em uma excepção. E isto é fundamental.
A transferência tornada a regra comum de recrutamento das equipas dos clubes de maior poder financeiro, não é certamente a mesma coisa do que a transferência que pode resultar amanhã dos casos excepcionais em que ela será possível e necessária.
Julgamos que o Belenenses tem neste momento os recursos necessários para constituir equipas que honrem o nome do clube e nos permitam aspirar a obter, com merecimento, as vitórias porque ansiamos.
Estabelecidos como vão ser, em bases leais e justas os regulamentos internos necessários à boa disciplina e valorização do nosso património desportivo julgamos também estar em condições de podermos esperar confiadamente a recolha dos frutos do que agora vamos semear.

(...)
É necessário, em nosso entender, que no Clube de Futebol Os Belenenses se crie a consciência da necessidade dum programa a realizar independentemente dos homens que ocupem os cargos directivos.
Compete à massa associativa dizer se trilhamos o bom caminho.
À Direcção uma única coisa interessa: Servir o C. F. B.


A revista “Stadium” de 1 de Outubro de 1947, para assinalar o vigésimo oitavo Aniversário do Clube, convidou Octávio de Brito a escrever um artigo sobre a ocasião. Antecedendo-o podia ler-se:
O Belenenses perfaz 28 anos e está em festa! O clube, engrandecido pela dedicação dos seus dirigentes e associados e pelo valor dos seus atletas, mantém uma vida pujante que se traduz na ideia de, época a época, fazer mais e melhor.
O sr. dr. Octávio de Brito, seu actual presidente, figura respeitada por toda a gente do desporto incluindo os adversários, a nosso pedido, escreveu o artigo – de fé belenense! – que publicamos com o mais vivo prazer, associando-nos às Festas do grande Clube lisboeta, e destacando ao mesmo tempo as suas mais recentes realizações: o ginásio, e a escola de jogadores.


Do que Octávio de Brito escreveu, destacamos dois excertos:
O crescente aumento do favor que as pugnas desportivas disfructam entre as multidões dão-nos a certeza de que alguma coisa existe que acorrenta o público aos locais onde se exibem os atletas e provoca a sua admiração e entusiasmo. E parece não oferecer dúvidas de que este entusiasmo é despertado pela superioridade revelada na execução dos lances e dos exercícios necessários para levar a melhor aos adversários com o fim de ganhar a competição
(...)
Colocados num dos extremos da cidade, numa zona que se encontra em franco progresso e cuja população, das mais diversas condições sociais, cresce dia a dia, os Belenenses têm hoje como máxima aspiração construir o “Estádio de Belém” que deverá ser o segundo lar de todos os seus associados, desde o mais humilde ao de maior categoria social, pois o mesmo ideal a todos os irmanará no desejo comum de tornar a vida mais bela através das satisfações, ao mesmo tempo simples e profundas, que se encontram na prática dos desportos.”.


A Escola de Futebol dirigida por Artur Quaresma, iniciou a sua actividade em 19 de Novembro de 1947. Octávio de Brito presidiu à sessão de abertura, e a revista “Stadium” de 26 de Novembro publicaria uma reportagem sobre a referida sessão, onde estava patente a atenção que então era dada ao futebol mais jovem do nosso Clube:

O curso de aprendizagem do futebol, a iniciativa do Belenenses que já criou raízes, começou a funcionar “de pleno”. O Curso, a cargo de Quaresma, tem uma certa autonomia, mas a Direcção do clube segue com o maior dos interesses tudo quanto se refere à sua iniciativa, que deseja ver mais aperfeiçoada, de forma a preencher completamente o fim em vista.

Os dirigentes de Belém trabalham em profundidade! Eles bem sabem as canseiras a que são obrigados pela falta de jogadores, e a dificuldade em substituir qualquer dos titulares... Assim, o desejo de “fazer escola” corresponde a uma necessidade premente.
Ao lado do ensino do treinador, o Belenenses resolveu portanto levar a cabo uma série de palestras educativas, completando a educação dos alunos: lições de fé belenense, criando e desenvolvendo o amor pelo clube; e páginas de ordem científica.

A inauguração do Curso realizou-se na semana passada. No Ginásio do Belenenses – um aproveitamento útil e uma bela obra! – compareceram não só os jogadores, como pessoas de suas famílias, jogadores de todas as categorias do clube, o antigo internacional e competente treinador Augusto Silva, e todos os elementos da Direcção, com o seu presidente e vice-presidente, sr. dr. Octávio de Brito e Acácio Rosa. Também estiveram presentes, tomando lugar na mesa de honra os nossos prezados camaradas e brilhantes jornalistas, Raul de Oliveira e Neves Reis, e também o sr. dr. Borges de Pinho.

O presidente do Belenenses, abrindo a sessão, referiu-se nos mais elogiosos termos às duas pessoas convidadas para a inauguração, salientando a sua contribuição ao jogo e à própria Organização.”

Tavares da Silva
[N.R.: conceituado jornalista e várias vezes Seleccionador Nacional], focou principalmente os seguintes pontos:
- Há pessoas com mais habilidade e vocação do que outras, mas só uma intensa aprendizagem fará um grande jogador de futebol.
- O futebol é um jogo de equipa, e todo o que quiser vir a ser jogador tem de mostrar-se solidário, desinteressado, completamente não-egoísta.
- O futebol exige do jogador determinadas qualidades físicas (destreza, velocidade, resistência) e morais (domínio de si próprio, sangue-frio, generosidade).
- Um princípio básico é o do jogador saber, em todos os problemas em campo, como resolvê-los.
- Essa perfeição consegue-se por meio de treino individual e estudo e análise do jogo de conjunto.
- Regime de vida do jogador para ele poder treinar com proveito.
- Operações do treino; o jogador de futebol deve ser um corredor de velocidade e um bom saltador.
- Do treino individual para o jogo de equipa.
- Conjunto de meios relativos à Técnica do Jogo.
- A arte de dispor e movimentar os jogadores em campo (Táctica)
- As duas formas puras de ataque: passe largo e passe curto. Qual o melhor ataque?
- Características do jogo de defesa e sua organização.
- Exageros a respeito de “tácticas”; Evolução do futebol com a alteração da Regra do “Offside”.
- Herbert Chapman, o criador do método W.M., e a propósito suas derivantes.
”.
(...)
Por sua parte, o sr. dr. Coelho da Fonseca fez uma verdadeira oração de fé belenense, com carinho, simpatia, numa fala mesmo impregnada de saudade. As grandes figuras do Belenenses, e Pepe mais em pormenor, perpassaram pela retina dos espectadores animadas pela palavra belenense do sr. dr. Coelho da Fonseca.

O Curso de Aprendizagem é hoje uma realidade! Os resultados positivos só se verão mais tarde. Mas sabemos que o Belenenses tem entre mãos outras iniciativas muito interessantes ligadas ao seu magnífico curso.


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Em Dezembro de 1947, mais uma vez sob a égide de Octávio de Brito, deslocámo-nos novamente a Madrid, para no dia 14 defrontarmos o Real na inauguração do Novo Estádio de Chamartin - obra do arquitecto Pepe Castell – que a partir de 1955 se passou a chamar Estádio Santiago Bernabéu. A este propósito, Tavares da Silva escreveu na revista “Stadium” de 17 de Dezembro, com os títulos “A melhor equipa em Chamartin não venceu! Causas? – Falta de remate, a lei da Sorte, a arbitragem de Escartin, e o estado da relva! Amaro e Quaresma, os dois gigantes dominando os pigmeus...”:

Todos os directores, mas principalmente o sr. dr. Octávio de Brito, num aprumo e num trato inexcedíveis de correcção, diplomacia e desportivismo, colocaram o Belenenses num plano muito alto. Falando na Emissora de Espanha, no banquete oficial ou assistindo à missa de benção do Novo Estádio de Chamartin, o presidente do Belenenses foi um dirigente à altura do momento. Acácio Rosa e os seus colegas acompanharam-no bem.

Perdemos por 3-1, mas a nossa exibição foi elogiada tanto pela imprensa portuguesa como pela espanhola:
Magnífica exibição” (Cândido de Oliveira, em “A Bola”);
O Beleneses nunca foi dominado” (Tavares da SiIva, no “Diário de Lisboa”);
Se jugó un buen futbol por los dos equipos” (Eduardo Teus, no jornal “Marca”);
Grata Impresión” (jornal “Pueblo”);
Hay que felicitar” (jornal “Arriba”).

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Em Fevereiro de 1948, no Boletim mensal “Os Belenenses”, a Direcção que acabava de tomar posse, novamente presidida por Octávio de Brito, dava conta dos seus propósitos num artigo intitulado “Palavras Claras” que ocupava toda a primeira página, e de que a seguir reproduzimos parte:
Não estamos aqui para satisfazer ambições inconfessáveis, vaidades balofas ou caprichos de momento.
Viemos para servir e queremos servir com fidelidade o nosso ideal.
E é por isso que aceitaremos de braços abertos toda a cooperação que seja norteada pelo mesmo desejo ardente de contribuir para os progressos do nosso querido clube teremos de repelir tudo o que procura afastar-nos do alvo que buscamos.

Nenhuns sentimentos de ordem pessoal terão influência nas nossas decisões, pudessem ser eles de amizade ou malquerença.
É vasta a tarefa que nos foi confiada e não podemos desperdiçar as vontades e os esforços que são necessários para a concluir com êxito.
Dirigimo-nos por isso, a todos os belenenses de boa vontade para, de olhos fitos na nossa bandeira, nos acompanharem no desejo de cada vez mais alto a vermos pairar.


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Na Assembleia-Geral Ordinária, para discussão do Relatório e Contas, o Dr. Octávio de Brito, Presidente da Direcção, faria uma importante comunicação aos sócios sobre a construção do novo Estádio:
Dou-vos a grata notícia de que S. Ex.ª o Ministro das Obras Públicas (Eng.º Frederico Ulrich), se dignou receber-me, afirmando todo o seu interesse pela nossa iniciativa. Foi-me permitido anunciar-vos que o Governo dará ao Belenenses um auxílio em absoluto pé de igualdade com o que for prestado a outros Clubes e ainda, o que é mais importante, que podíamos prosseguir nas negociações com a Câmara Municipal de Lisboa, a fim de se demarcar definitivamente onde há-de erguer-se o futuro “Estádio de Belém”!

Meus Senhores, peço-vos que me acompanheis nos sinceros agradecimentos que dirijo ao Governo e a S. Ex.ª o Ministro das Obras Públicas
”. Seguiram-se vibrantes aclamações da Assembleia.

A promessa de Frederico Ulrich a Octávio de Brito seria cumprida, e o relatório da Gerência de 1948 diria o seguinte sobre o “Novo Campo”:
No decurso do ano e depois de várias diligências feitas na C. M. L., onde tivemos sempre acolhimento generoso e amigo por parte do ilustre Presidente Ex.mo Sr. Coronel Salvação Barreto e Chefe dos Serviços Técnicos, Ex.mo Sr. Eng.º Vasconcelos e Sá, foi por estes serviços indicado, em princípio, como local, aconselhável, o que se situa junto à Rua dos Jerónimos, nos terrenos conhecidos pela antiga cerca da Casa Pia.
Portanto, finalmente, foi localizado o “Estádio do Clube”, graças aos esforços incessantes do Presidente da Direcção, Dr. Octávio de Brito.


A 28 de Maio realizou-se uma Festa de Homenagem a Rafael Correia, “internacional” e grande dedicação clubista, que se despedia do futebol aos 33 anos. Octávio de Brito, “em palavras de grande eloquência e fervor clubista, fez a apologia da ideia desportiva e o elogio do homenageado, enquanto Rafael, ladeado por Francisco Ferreira e Bernardo Soares, depunha flores no monumento a Pepe.
(em “Factos, Nomes e Números da História do Clube de Futebol “Os Belenenses” 1919-1960, Acácio Rosa).

Nessa época, a 7 de Julho de 1948, o Belenenses chegou à Final da Taça de Portugal, que perderia por 3-1 frente ao Sporting. No campeonato ficáramos em 3º lugar.

Em 5 de Outubro, teve lugar a Festa de Homenagem a Artur Quaresma que, por vontade própria, abandonava com apenas 31 anos, continuando no entanto a exercer as funções de treinador.

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Ainda em 1948, a Direcção lançaria uma campanha para se chegar aos 12.000 sócios, sob o lema “Já sômos 9.000... queremos ser 12.000”.

Na comemoração do nosso vigésimo nono Aniversário, num discurso considerado por Acácio Rosa como um “Verdadeiro hino de Fé nos Destinos do Clube!”, Octávio de Brito afirmava:
No desempenho do árduo e honroso encargo que há dois anos pesa sobre os meus ombros, nunca me preocuparam os êxitos fáceis, mas momentâneos, e por isso mesmo destinados a passageiro eco, sem repercussão na vida futura do Clube.
As Direcções passam e o Clube fica. E só a vida deste interessa pois é também só ele que representa para todos nós a razão e o fim do que lhe sacrificamos em tempo e em trabalho.
Fez-se este ano uma renovação profunda nos quadros dos grupos representativos do nosso futebol.
Para dar uma ideia da sua extensão basta dizer que do grupo que há três anos ganhou o Nacional, e entre os efectivos e suplentes eram dezassete jogadores, apenas quatro se encontram em actividade no Belenenses.

Podemos afirmar com orgulho que nenhum outro Clube português poderia ter realizado tão extensa transformação. E nós pudemos efectuá-la porque tínhamos trabalhado com empenho, desde há quatro anos, na preparação de novos jogadores; Figueiredo, David de Matos, Pinto de Almeida, Fernando Matos, Rocha, Portas, Henriques da Silva, vieram todos dos juniores, formados e treinados no campo das Salésias por Augusto Silva e por Rodolfo Faroleiro.
Fomos este ano mais longe criando a “Escola de Jogadores”.

Se tivemos ou não razão na medida adoptada di-lo o franco acolhimento que teve a iniciativa do nosso Clube com o Torneio das Escolas e a resolução de tantos outros Clubes que adoptaram a nossa ideia criando as suas Escolas e entrando assim no bom caminho.

É necessário dar continuidade e realização profunda em trabalhos iniciados pois não pode nem deve perder-se o trabalho já realizado. Ele não é de A ou B, é de nós todos belenenses porque está na nossa vontade colectiva determinar que prossiga na rota que nos há-de preparar para maiores cometimentos.


BRILHANTE, brilhante, brilhante”, assim começava a revista “Stadium”, a sua reportagem à Festa de Homenagem a Mariano Amaro, realizada a 26 de Dezembro de 1948.

Na mesma reportagem publicada a 29 de Dezembro podia ler-se:
À volta do popular jogador, capitão dezenas de vezes do seu “team” de clube, jogador inesquecível na equipa dos Belenenses e na selecção nacional, reuniram-se valiosas e comovedoras colaborações.

E mais à frente:
Vimos... Vimos uma festa linda. Uma festa à altura daquilo que Mariano Amaro merecia. Pelas suas qualidades de desportista e de jogador. Pelo infortúnio que o atingiu.
(...)
Repetimos: festa linda, comovedora. A mais bela homenagem até hoje prestada em Portugal a um jogador de futebol. Um jogador que, aliás, fez tudo por merecê-la.

O Dr. Octávio de Brito discursaria na ocasião, pondo em relevo a dedicação de Amaro ao Clube, o seu esforço sempre generosamente despendido, a sua fé e a sua indomável energia de bom belenense!

Em 1949, já sob a presidência de Acácio Rosa, Octávio de Brito aceitou integrar juntamente com Francisco Mega, Constantino Fernandes, Coelho da Fonseca e Casimiro Janeiro, uma Comissão para elaborar uma proposta de remodelação dos estatutos do Clube.

Com a criação do Conselho Geral, passou a ser membro nato deste órgão, onde as suas opiniões e conselhos eram sempre ouvidos com o maior respeito.

Octávio de Brito viria a falecer a 23 de Junho de 1957. O seu funeral, realizado a 24 de Junho, dia em que completaria 57 anos, constituiu uma impressionante manifestação de pesar. Nele incorporaram-se muitos associados do Clube, que não quiseram deixar de prestar uma última homenagem ao grande belenense que ele foi em vida.

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O semanário “Os Belenenses” de 28 de Junho de 1957 assinalava assim o momento de luto para o Clube:
Nada fazia prever o triste acontecimento, pois o Dr. Octávio de Brito, embora de saúde um pouco abalada, resultado de uma vida plena de trabalho e de esforços, numa actividade transbordante, que traduzia perfeitamente o espírito empreendedor e ousado de um homem sempre em luta e insatisfeito, ainda na véspera do seu falecimento fazia a sua vida normal, dedicando-se, com o entusiasmo de sempre às suas actividades profissionais.

Por isso mesmo, o golpe foi mais rude, ferindo profundamente, implacavelmente, não só os seus familiares como quantos o conheciam e que se tinham habituado a admirar e a respeitar as suas qualidades de carácter, os seus dotes de coração e o seu trato fino, correcto e cavalheiresco.

É que o Dr. Octávio de Brito – e a afirmação nada tem de exagero – cativava e prendia, logo ao primeiro contacto, quantos tinham a felicidade de com ele privar, pois logo se descobriam os seus dotes, numa manifestação vibrante de inteligência e vivacidade de espírito.

(...)
Entusiasta e apaixonado do Desporto e do Belenenses, ao qual dedicava, de há muito, grande carinho, foi presidente do clube nas gerências de 1946-47 e de 1947-48, tendo como vice-presidente Acácio Rosa, seu grande amigo e admirador.
A sua acção na gerência do Belenenses foi notável e revelou, mais uma vez, a capacidade realizadora, a inteligência e o tacto que colocava nas empresas a que metia ombros.


No “Diário de Lisboa” de 24 de Junho, noticiando o seu falecimento, podia ler-se sobre Octávio de Brito:
Grande entusiasta pelo Clube de Futebol “Os Belenenses”, presidiu durante alguns anos, à sua direcção, tendo prestado grandes serviços à popular agremiação.

O jornal “A Bola” afirmava então:
Faleceu no passado dia 23 o sr. dr. Octávio de Brito, brilhante figura do foro e contabilista de mérito superior.
Às lides da sua profissão, nas quais marcou lugar do maior relevo, soube contrapor o ilustre extinto o derivativo do Desporto, entregando-se-lhe com a visão e o carinho que são timbre dos desportistas de eleição.
Militou nas fileiras do Belenenses, seu clube de sempre, onde granjeou a maior simpatia e admiração e no qual exerceu cargos de dirigente acrescentando sobremodo o prestígio da popular colectividade.


Ainda em 1957 ser-lhe-ia atribuído o galardão de Sócio de Mérito “pelos relevantes serviços prestados ao Clube”. Foi o único galardão que até agora o Clube lhe concedeu. O mesmo que, por exemplo, em 1982 foi atribuído a Nuno Abecassis e em 2005 a João Soares e a Santana Lopes... (como é possível que isto aconteça no nosso Clube?!!!).

Octávio de Brito foi um dos grandes dirigentes da nossa história gloriosa, e um dos melhores presidentes de sempre.

A ele devemos a primeira Escola de Jogadores de Futebol.

A ele devemos o estreitamento de relações com o Real Madrid (...em pé de igualdade!).

A ele devemos o terreno onde está edificado o Estádio do Restelo.

A ele (e a Constantino Fernandes) devemos o último dos quatro títulos de campeão português que ostentamos. Há já sessenta anos ...


Com ele, sim... CRESCEMOS, INOVÁMOS, VENCEMOS!

Que saudade, Dr. Octávio de Brito... QUE SAUDADES, BELENENSES!

sexta-feira, 23 de junho de 2006

Neste dia, em . . .

1955 – Jogo com A.C. Milan para a Taça Latina

Tendo, na véspera, sido derrotado, embora de forma honrosa, pelo Real Madrid, o Belenenses disputou nesta data o terceiro lugar da Taça Latina com o também poderoso A.C. Milan.

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Em termos de posse de bola e de domínio territorial, o Belenenses jogou melhor. A iniciativa foi quase sempre da nossa equipa. Para o efeito, reconheça-se, também terá contribuído o facto de, por ter, igualmente na véspera, sido forçado a um prolongamento, o Milão ter abdicado de cinco ou seis dos seus titulares (nós alinhámos com o mesmo Onze do dia anterior, opção decerto discutível; também nós entrámos, pois, debilitados, embora por outra razão).

Acrescia ainda a simpatia do público parisiense, conquistada no jogo com o Real Madrid. A exibição do Belenenses e, sobretudo, de Matateu, a dureza dos espanhóis e a má arbitragem que nos desfavoreceu, a tal conduzira. Mas, para a história, fica sobretudo o resultado, e esse foi-nos desfavorável por 3-1.

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Não foi um grande jogo, naturalmente, devido à sobrecarga de dois jogos em dias seguidos. De qualquer forma, foi pena as inúmeras oportunidades desperdiçadas pela nossa equipa, bem como um golo mal anulado, que, na altura, deixaria o jogo empatado 1-1.

Segundo o jornal “A Bola”, o melhor jogador azul foi Vicente. Quanto a Matateu, jogou bastante combalido pela dureza de que foi vítima na véspera. Não obstante, o seu génio deixou um lastro de fama e, além disso, recebeu um enorme elogio de um grande senhor do futebol mundial, Helénio Herrera – esse mesmo, que dois anos depois viria treinar o Belenenses.

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O Milão aos 16 minutos, fez 1-0. Dez minutos depois, houve o tal golo mal anulado ao Belenenses. Aos 75 minutos, os italianos aumentaram para 2-0.

Aos 77minutos, por intermédio de Matateu, que acorreu a uma bola atirada ao poste por Dimas, o Belenenses reduziu para 2-1. Renascia a esperança.

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No entanto, aos 83 minutos, a partida ficou sentenciada, com o Milão a marcar com remate de longe, beneficiando de José Pereira se ter encadeado com a iluminação artificial.

quinta-feira, 22 de junho de 2006

Neste dia, em . . .

1941 – Belenenses presente, pela segunda vez, na Final da Taça de Portugal

Na terceira edição da Taça de Portugal, o Belenenses chegou pela segunda vez (e consecutiva) à final.

No Campeonato Nacional, o Belenenses fora terceiro classificado, a quatro pontos do Sporting, a um ponto do F.C.Porto e um ponto à frente do Benfica. Tivera o melhor ataque e a melhor defesa.

Na Taça de Portugal, o Belenenses, nos oitavos de final, começou por vencer o Boavista com duas goleadas: 7-1 Fora e 8-0 em Casa (15-1 no total).

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Vieram os quartos de final, e saiu-nos a Académica, que havia sido a vencedora da primeira edição. Ganhámos por 5-1 nas Salésias e, depois, por 2-0 em Coimbra. Avançámos para as meias-finais.

O adversário era o Benfica. A rivalidade era intensa. Começámos por perder Fora por 1-0. Na segunda-mão, nas Salésias, anulámos a desvantagem, triunfando por 2-1. Houve, assim, necessidade de um terceiro jogo, de desempate. Neste, o Belenenses bateu o Benfica por 3-2.

Chegámos assim à final. O nosso adversário era o Sporting, que eliminara o Seixal, o Vitória de Guimarães e o Unidos.

Tendo sido Campeão Nacional, o Sporting beneficiava de ligeiro (apenas ligeiro) favoritismo. Os jogos para o Campeonato de Lisboa e para o Campeonato Nacional tinham sido muito divididos, com alguns resultados surpreendentes, pelo desnível dos números. Assim, para o Campeonato de Lisboa, o Belenenses ganhara 3-1 em Casa e perdera 7-1 Fora (a maior goleada que o Sporting nos infligiu em qualquer jogo disputado; ainda assim, aquém dos 9-0 com que já os vencemos (cfr. 22 de Maio). Para o Campeonato Nacional, o Belenenses baqueara 3-1 Fora mas goleara os verde-brancos por 5-1 no nosso Estádio.

Veio, então, a final. Estava assente, previamente, por sorteio, que o jogo seria nas Salésias – com efeito, nos primeiros anos, as finais alternavam entre o Lumiar (casa do Sporting) e as Salésias (lar do Belenenses).

O Estádio José Manuel Soares Pepe estava naturalmente cheio de adeptos dos dois clubes. Ambos perseguiam a primeira conquista desta Competição.

O Belenenses alinhou desta forma: Salvador Jorge; José Simões e Feliciano; Mariano Amaro, Gomes e Varela Marques; Gilberto, Óscar Tellechea, Horácio Tellechea, Bernardo Soares e Rafael Correia.

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A nossa equipa perdeu por 4-1. Resumindo, o jogo foi caracterizado por o Belenenses a atacar e o Sporting a marcar...

Do livro “A Paixão do Povo – História do Futebol em Portugal”, de João Nuno Coelho e Francisco Pinheiro, citamos a descrição do encontro: “...A primeira parte do jogo terminou com o Sporting em vantagem por 1-0, com o golo a ser marcado pelo extremo João Cruz, aos 36 minutos, culminando de forma acertada um passe de Peyroteo. O Belenenses desperdiçou durante o primeiro tempo três flagrantes oportunidades de golo, o que enervou ainda mais os seus jogadores. Este jogo ficaria famoso pela bravura e espírito de sacrifício demonstrados pelo guarda-redes do Sporting, João Azevedo, que jogou quase toda a partida com um pé fracturado, realizando mesmo assim uma exibição de luxo.

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A equipa leonina, com um índice de aproveitamento muito superior aos ‘azuis’, praticamente ganhou o jogo nos primeiros minutos da segunda parte. Logo aos três minutos, com um remate forte e colocado, João Cruz bisou, para ao minuto 7 fazer o hat-trick da tarde, num golo marcado com um remate a 40 metros da baliza... O guarda-redes de Belém, Salvador, traído pelo sol, não conseguiu opor-se ao balão atirado por Cruz quase do meio-campo. Estava feito o 3-0. Logo de seguida, aos oito minutos, Gilberto, com uma excelente desmarcação pelo seu flanco, conseguiu abrir o marcador para o Belenenses, dando novo alento à sua turma.

A partir desse momento, o jogo passou a registar atritos e picardias entre os jogadores, até que aos 34 minutos, Peyroteo fez o 4-1, acabando com as poucas esperanças...”.

Assim, a conquista do troféu ficou adiada para o ano seguinte. À terceira foi de vez!



1955 – Estreia na Taça Latina, com Real Madrid

No fim dos anos quarenta e na década de cinquenta, antes de se iniciarem as competições europeias de clubes, a Taça Latina, em que participavam representantes de Portugal, Espanha, França e Itália, gozou de grande popularidade.

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Ao longo dos anos em que se realizou, Benfica, Sporting e, neste ano de 1955, o Belenenses, foram os representantes de Portugal.

A tarefa com que a nossa equipa se iria deparar, não era nada fácil. Bastava ver os nomes dos adversários: o Real Madrid, o Milan e o Stade de Reims. Os dois primeiros nomes dispensam apresentações. Quanto ao clube francês, foi finalista da primeira edição da Taça dos Campeões, em 1956 (meses depois, perderia no Restelo por 2-0; cfr. 25 de Setembro), o que repetiria 2 anos depois. Acrescia a isto o estado moral da nossa equipa, certamente ainda afectada pela perda do Campeonato desse ano, a 4 minutos do fim (cfr. 24 de Abril)...

No primeiro jogo, disputado nesta data em Paris, o Belenenses defrontou-se com o Real Madrid. Era o sexto jogo entre as duas equipas. Apesar de só um dos cinco encontros anteriores se ter disputado em Portugal, havia uma igualdade entre as duas formações, com duas vitórias para cada uma e um empate.

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Infelizmente, neste jogo, o Real Madrid passou para a frente, ganhando por 2-0, com golos marcados aos 14 e 60 minutos.

No entanto, o Belenenses fez um excelente jogo: atacou mais do que o seu adversário, chegou em vários períodos a ter dez jogadores (!!!) no meio campo madrileno e dispôs de várias oportunidades para marcar, inclusive antes dos espanhóis. Di Pace e Dimas atiraram mesmo, cada um deles, uma bola ao poste; e, noutra jogada, a bola andou a saltitar em frente do risco de baliza...

Matateu pôs a cabeça em água aos defensores do Real Madrid, acabando por ser vitoriado pelo público. O Belenenses perdeu mas Matateu triunfou em Paris.

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Lamentavelmente, o árbitro não esteve à altura: deixou passar muitas faltas em claro; e não puniu disciplinarmente a dureza dos espanhóis. Esta chegou ao ponto de Matateu ter que sair a sangrar abundantemente de campo, levado em braços, depois de sofrer uma entrada brutal. Só vários minutos depois pôde reentrar em campo.

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Enfim, perdemos mas com honra e com bastante pouca sorte e desajuda do árbitro.

Registemos a constituição da nossa equipa: José Pereira; Pires e Serafim; Carlos Silva, Figueiredo e Vicente; Dimas, Di Pace, Perez, Matateu e Tito.


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quarta-feira, 21 de junho de 2006

OS QUATRO GRANDES

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Era mesmo assim, está escrito, não é invenção.

E não era o 4º Grande. Era um dos 4 Grandes.

Gostamos e pugnamos pela grandeza do Belenenses e por isso historiamo-lo. Aqui, até ao fim, só vai dar Belém, Belém, Belém.

Neste dia, em . . .

1931 – Inauguração de primeiro corpo de bancadas no Estádio das Salésias

Já a propósito de várias ocasiões nos referimos à gesta Belenense pela criação de condições ímpares e muito à frente do seu tempo, em termos de instalações desportivas. Igualmente nos referimos a este esforço como cerceador de meios que poderiam ter sido aplicados em recursos desportivos e aumento de competitividade.

Esforço este que nunca seria reconhecido. Antes pelo contrário, como se veria mais tarde, em 1946, o Belenenses foi fortemente penalizado, quando recebeu da Câmara Municipal de Lisboa a notificação para o despejo dos terrenos das Salésias, logo após a conquista do último Campeonato Nacional.

Relembrar que o Estádio José Manuel Soares foi a casa da Selecção por ser, durante anos, o único terreno relvado em Portugal, nunca é demais. Nada disso, porém, deteve os «interesses ocultos». O actual estado de abandono em que se encontram os terrenos das Salésias, 50 anos depois da saída para o Restelo, é prova mais do que evidente do objectivo por detrás do tratamento a que o Belenenses foi sujeito.

Dos melhoramentos introduzidos desde a posse inicial dos terrenos consta a construção do primeiro corpo de bancadas no então ainda denominado Estádio das Salésias.

Nesta construção destacou-se a denominada «Comissão de Melhoramentos» constituida pelos sócios Vital Jorge de Sousa, Jaime Alves, Luís Teixeira, Fernando Nunes e Joaquim d’Almeida, tendo este último inclusive participado activamente com a sua mão-de-obra e coordenando os trabalhos no terreno.

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Ao contrário dos seus rivais, o Belenenses pretendia instalar uma obra duradoura, que além de orgulhar todos os Belenenses, a todos servisse com o máximo de qualidade e conforto. Assim, em vez de meras construções de madeira, construiu as bancadas em betão armado, com lugares largos e camarotes bem dispostos.

Para comemorar a inauguração foi organizado um programa de jogos de hóquei e futebol para os quais o Belenenses convidou o Barreirense, o Luso do Barreiro e o União de Lisboa.

Os resultados pouco importam, mas de qualquer forma aqui fica o registo:
Hóquei em campo: Belenenses, 1 – Luso do Barreiro, 3
Futebol: Belenenses, 2 – Luso do Barreiro, 2 e União de Lisboa, 3 – Barreirense, 1.

terça-feira, 20 de junho de 2006

O Ponto de (não) Viragem

Escrevi há cerca de uma semana sobre este assunto. Referi-me ao actual momento do Belenenses, que invariavelmente recai num tema que actua como elemento absorvente. Tal como o eucalipto, nada à sua volta cresce, pois tudo suga. Atenções, recursos, tudo.

Se por um lado penso que o Clube, especialmente na pessoa do seu Presidente deve ser mais activo e mediático, por outro tenha a clara visão de que fazer notícias sobre as notícias e as não-notícias e comentar comentários que, a bem dizer, nem o são, é pura perda de tempo. Mas quanto a isso já não tenho mais nada a dizer. Ou melhor, tenho, mas não quero ferir (mais) susceptibilidades.

Prefiro olhar para esta situação noutra perspectiva. Como em tudo o que é negativo, daí também se podem tirar ilações sobre outro modo de actuar. Não é o que institucionalmente temos estado a fazer. E urge mudar.

Confesso que a semana que passou, longe de computadores e de acesso à Internet, infelizmente o único meio em que o Belenenses ainda é visível, tentei colocar-me na perspectiva de quem acompanha este caso apenas pela imprensa escrita ou pela televisão. Apenas confirmei aquilo que já intuíra.

O cenário é triste. Primeiro porque é um caso que é ignorado pela maioria dos órgãos de informação. Lá aparece meia paginazita por diário e uma ou outra referência. Só dá “Mundial”. E ninguém que não nós e os dito-cujos querem saber disto.

O pior mesmo é que só dá «galito» nas suas conferências de imprensa. O homem está errado e detesto a postura, aliás, não é assim que queria ver o nosso Presidente agir, até porque seria incapaz (ainda bem!). Mas a verdade é que mesmo de outra forma, com educação, correcção e argumentação decente, do nosso lado, zero ou pouco mais temos de forma que seja audível.

Confesso, já estou farto deste «galito». Desse e do pai que afinal não era ou é – não sei – e que entretanto pediu demissão não sei se de pai, não vá o «minguito» ficar órfão – isso não queremos coitado do moço.

Mais a sério, entristece-me não ver uma resposta elaborada, mediática e imediata da nossa parte. O low-profile em situações deste género é contra-producente. Exige-se uma resposta que contrarie a própria essência ou feitio do próprio Presidente, mas mantendo os princípios de extrema correcção e educação. Ontem esteve na SIC Notícias, mas é pouco.

Não defendo que deva aparecer a comentar as alarvidades de cada vez que o «galito» regurgita. Antes pelo contrário.

Penso, sim, que deve dar uma conferência Clara-Curta-Concisa, simples, tão curta quanto possível, no Restelo, mas que explique os passos que se deram até agora e que reflictam a verdade dos factos, de uma forma correcta mas brutalmente contundente nas razões que nos assistem. Para que finalmente se dê a viragem da opinião pública.

Tão embrenhados que estamos no nosso mundo fechado que nos esquecemos de como o mundo e os nossos que não vivem agarrados à net vêem tudo o que se está a passar.

Ponhamo-nos na posição daqueles que não bloguam e não acedem ao site oficial (uma vez tentámos abordar este tema, mas convenhamos que esta é uma comunidade pouco autocrítica).

No Sábado passado (17/06) o Portal Oficial publica uma resposta às «conFIÚZões». Porreiro, baril, não lhe tiro o mérito.
Mas eu pergunto: Quem leu? Jornalistas fizeram eco? Algum belenense não-internauta (raça em risco elevado de extinção e não porque os que internetam estejam a aumentar) leu? Alguém fora deste círculo fechado da “net azul” ficou convencido que afinal temos mérito e que a nossa causa é justa?

Está bem escrever na Internet, mas temos que, de uma vez por todas, perceber que ESTAMOS, TODOS NOS BLOGS E SITES DO BELENENSES, A ESCREVER E A FALAR EM CIRCULO FECHADO. Que bloglords, blogueiros e bloguistas não o percebam ainda vá, pode o próprio umbigo ser tentador, embora não seja preciso ser intelectual para disso nos apercebermos, mas uma Direcção – mais – um Clube? Não pode ser! E urge mudar esta mentalidade, esta prática e sair deste círculo vicioso e viciante. Eu próprio tenho esta noção quando estou a escrever estas palavras. Estou a escrever para um destinatário principal – o único que pode mudar algo de facto: Cabral Ferreira, claro! Há outro destinatário, que é a própria «blogosfera», mas dessa já há muito que desisti de tentar ver alguns méritos no que penso e manifesto.

Iniciativas como a de ontem, de ir à TV, são de louvar mas, especialmente, SÃO DE REPETIR.
Não fiquemos por aqui. Rádio, TV, Jornais ou fazer estes meios ir ao Restelo e dar-lhe uma apresentação filmada do nosso ponto de vista. Não que isso vá ajudar na resolução do caso/affair/filme, nas instâncias competentes. Não.

Não somos mafiosos. Mas pode fazer milagres na reunião dos Belenenses em torno de uma causa como nenhuma outra coisa nos últimos 10 anos o conseguiu fazer. E refiro-me até a aqueles que viraram costas ao longo deste tempo. É como nas famílias, por mais problemas internos que haja, havendo uma ameaça externa, os membros unem-se contra a ameaça exterior e até os parentes que não se vêem há anos voltam para ajudar. Saibamos lá chegar finalmente. Há uns tempos escrevi sobre este assunto como sendo a mais PRIORITÁRIA DAS TAREFAS, porque só assim se pode tornar o Clube mais forte. Sem a abertura (ou recuperação) de canais próprios de comunicação com os Belenenses, principais e não apenas alternativos, não vamos a lado nenhum. E este momento, em que nos fizeram esta nojeira já 1000 vezes relatada em circulo fechado mas que pouco dele sai de modo a chocar não só os Belenenses mas todos que estejam atentos ao fenómeno desportivo, é o momento ideal para começar a fazermo-nos ouvir FORA daqui.

E aí arriscar-me-ia a dizer que quanto mais formos injustiçados e nos saibamos fazer ouvir, mais a opinião pública nos olhará como deve ser, ao invés de agora em que somos os maus da fita, como e muito bem o «galito» tem aproveitado para passar essa imagem.
Como diz o meu Pai (e bem), «quem não chora não mama!».

Agora sim, caro Cabral Ferreira, era de ir ver fora do país um jogo que não do Belenenses, era de ir à Alemanha ver um jogo do Mundial (se o Clube não tem dinheiro e não há já nenhum bacano para lho pagar, aqui os generosos fazem uma vaquinha), com pompa e circunstância, fazendo-se notado e no final ser entrevistado à saída e aproveitar o minutito para propagar a «mensagem». A ideia não é minha mas parece-me boa, especialmente porque nesse momento está um mundo de gente a ver!

Deixe lá de se preocupar com a net que estes já estão fidelizados/domados. Atire-se mas é aos outros com unhas de dentes! Aos que são Belenenses e já nem se lembram. Porque também são da família!.